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lendo as torturas que se inflingiam aos prisioneiros na idade media. No fim de duas horas os meus guardas tendo piedade do meu estado, ou julgando-me morto desceram-me.

Cahi no chão sem movimento.

Era uma massa inerte, sem outro sentimento que o de uma profunda e muda dôr — era quasi um cadaver.

N’este estado sem eu saber o que faziam de mim metteram-me nos cepos.

Tinha andado com as mãos e pés ligados atravez de pantanos cincoenta milhas. Os mosquitos numerosos e enraivecidos n’esta estação tinham-me tornado o rosto e as mãos n’uma grande chaga. Havia soffrido durante duas horas horriveis torturas, e quando tornei a mim achei-me ligado a um assassino.

Ainda que não tivesse dito uma unica palavra, no meio dos meus atrozes soffrimentos, D. Jacintho Andreas tinha sido preso. Os habitantes do paiz estavam cheios de espanto.

Em quanto a mim senão fossem os cuidados de uma mulher que foi para mim um anjo de caridade teria succumbido a tão atrozes soffrimentos. Despresando todo o perigo, vinha ver-me todos os dias, trazendo-me o que eu necessitava.

Chamava-se Allemand.

Poucos dias depois o governador vendo que eram inuteis todas as tentativas que fazia para me obrigar a fallar, e convencido que eu morreria antes de denunciar um dos meus amigos, não querendo provavelmente tomar sobre si a responsabilidade da minha morte mandou-me para a capital da provincia Bagada. Fiquei dois mezes na prisão no fim dos quaes o governador me mandou dizer que me era permitido sahir livremente da provincia. Ainda que eu tenho opiniões oppostas a Echague e que por mais de uma vez, depois d’esse dia, tenha combatido contra elle não devo occultar as obrigações de que lhe sou devedor e ambicionava hoje ter occasião de lhe provar todo