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Por mim só não me custava sofrer, se por minha não sofresse a minha pobre mãe, coitadinha, e as minhas irmãs que viviam do meu braço!... E aqui está tambem o meu primo que deixou sem amparo a mulher e três filhinhos...
« Mas as torturas que tem sofrido a snr.a D. Maria Adelaide, essas são o meu constante tormento. Porque se assim não fôsse, afinal, a gente aprende muito quando sofre. »
E como que falando a alguem distante rematava numa expressiva filosofia:
— Tambem há gôso no sofrimento!...
Eu interrogava-me: — será verdade tudo isto, ou não passará de ilusão? Confirma-se a existência de uma alma boa?
Há em verdade, neste drama, a essência de um amôr cristão que teve origem num choque de alma para alma, pela alma?
Quási o acredito, tão palpáveis são as revelações.
É uma psicologia do amor que para penetrar nas regiões de uma nobre finalidade, tem de passar antes pela esfera do materialisino e pelo limbo do pecado original?!
Que inspiração é a da minha pena escrevendo isto, que vai fazer pensar tanta gente, e modificar as suas concepções de justiça, senão a colaboração de continuidade pessa obra de amor humanitário encetada por estas duas almas?
Não, não há aqui um caso banal, repito, cada vez mais convicta e interessada.
Este amôr de uma mulher que tem tantos méritos na sua delicada organisação, é relocado de transcendente idealidade.
Captivou-lhe a alma agitando-lhe o corpo porque tinha de passar pela transição das leis naturais que transformam a matéria em espirito. O Manuel é apenas um intermediário