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cultivar-se, ou certos inexplicaveis mas graciosos atrativos de gente que nunca saiu da condição humilde.
Quanta graça vaporosa e aerea se encontra por vezes numa camponeza que tem mais distinção no seu todo do que a mais nobre e bem ataviada dama de alta gerarquia? É que ha nessa creatura uma superior organisação inrevelada.
O ritmo enleante da sua graça interior, não brilhou por falta de cultura. Mas nem por isso deixou de atrair, de rescender e insinuar-se como em aroma de flôr silvestre e expontaneamente bela.
Ora um chauffeur pode ter em si o embrião de um homem de valor.
Porque não ha-de existir um organismo de privilegio mal revelado, na personalidade que por força de circunstancias exerce a função de guiar automoveis? Com o nascimento e cultura de um D'Anunzio, poderia ser o que êle é com a sua legião de heroismos e as suas ardentissimas paixões de poeta.
Que sabemos nós do que existe no fundo de cada ser?
Que pudemos dizer do rubro incendio de amor que crepitou numa atmosfera de gelo?
A verdade é que uma paixão nasceu, germinou e arrebatou.
E pode acreditar-se que uma natureza de invulgar quilate se avitasse descendo até às supremas resoluções sem um motivo mais nobre do que un impulso material, sem uma correspondencia de sentimento ou de espiritualidade que a seduzisse?
É demencia, concluem. É loucura lucida, argumentam.
Mas eu conheço algumas dessas loucuras em outras