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Ao Ex.mo Snr. Dr. Bernardo Lucas
 

 

Embora V. Ex.a me desanimasse, quando da audiência que lhe solicitei no desejo de contribuir para a defega dêste debate sensacional e me demonstrasse à dificuldade desta publicação, não esmoreci no meu intento. É que nesse expontâneo desejo não se agitava só a ambição de defender uma causa pessoal. Palpitava o interesse por uma causa comum — a defeza de um sexo ligada a todos os problemas de ordem social.

Aqui estou, pois, transgredindo as opiniões de V. Ex.a a associar aos complicados processos juridicos, os quesitos sentimentais do meu coração, do meu critério e da minha martirisada experiência.

Não obedeci a sugestões extranhas. Fala em mim apenas o raciocínio natural. Julgo-me no dover de falar e falo sem temôr da censura pública. E brado bem alto ao expôr a minha opinião acerca do defensor audaz de uma mulher que o rigor deshumano das perseguições familiares e sociais eleva, afinal, à condição de mártir, diminuindo-lhe a responsabilidade de culpada.

Tomou V. Ex.a conta desta defeza nas condições em que Jesus Cristo protegeu do furor da plebe uma frágil pecadora. Deve por isso merecer a corrente das públicas simpatias.

Uma causa destas não se julga hum só tribunal juridico. Tem que passar pelo tribunal das consciências cultas e humanitárias. Tem de ser julgada pelo juri de criterios leais, rectos e orientados por ideias afustadas dus léis antigas