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Cá fóra, no convivio social, era afavel e delicado, sem artifício, porque herdára esse mérito do lado materno.

Travára-se um dia ardente discussão sobre um dos seus actos agressivos que muito maguára uma pessoa bondosa. Alguem que tinha por esse homem uma fanática simpatia, duvidava de que êle fosse capaz de praticar a violência que lhe era atribuída. No meio da discussão surge entre vários papeis uma fotografia sua que o reproduzira numa hora de mau humor, com uma expressão carrancuda, dura, colérica. « Quem é este semblante furibundo? » — exclama jucosamente a sua fanática admiradora. E atira longe com a fotografia.

Sorriu a sua interlocutora, e foi buscar uma segunda fotografia de expressão insinuante e afavel que pôz ao lado da primeira. « Repara bem se êste furibundo se parece com esta pomba » ― disse para a companheira.

« Mas é impossivel que sejam do mesmo » retorquiu a segunda deveras confundida.

« É que te esqueces que na nossa raça predomina uma dualidade de pomba e de chacal. No dia em que a pomba vencer o chacal, cultivando a mansidão e sufocando os impulsos da arrogância e das iras, seremos a gente mais gloriosa e feliz do mundo. »

Estava presente uma criança filha da pessoa discutida e para quem o pai era terno e brando. Viu a fotografia do mal humorado. Mirou-a e remirou-a. E por fim disse veementemente: « Este não é o Papá » !

 
 

O mesmo se pode dizer de certos aspectos exteriores que são expressão instável e não linha anatómica em pessoas cuja substância fundamental do caracter é sujeita a frequentes exaltações.