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Livre dêsse invólucro superficial, ficará o espírito alado, sénsível ao bem e á bondade, ficará o coração da raça, o coração português.

Que é isto, afinal, esta nossa raça de lusitanos. Fóra das flutuações vertiginosas, perturbantes de emoções desencontradas que vibratilisam e empolgam, que desorientam e desfiguram, bem puderamos ser luzeiro de espiritualissima bondade nos movimentos da civilização mundial.

Mas se a alma portuguesa é uma sintonia genial de sentimento e poesia, anda em tal desafinação a orquestra dos executantes, que só entrará em harmonia no dia em que todos os que podem e querem, afinarem o seu entendimento pela melodia suave do coração.

Como muiher, como vitima de uma atribulada vida conjugal, como humanitária e pacifista, claro está que entre as três vítimas e os três culpados, me é mais simpática aquela que sendo mulher é sempre a maior vítima.

E decerto a engrandecerá perante a sociedade, a virtude excelsa da piedade que em todos os tempos foi a glória mais bela da mulher e das nações.

Em cada mulher piedosa revive a suavissima Antígona que conduziu a cegueira de Œdipo deixando um rastro de poesia imorredoura e sublime nos floridos e rescendentes vales de Colona. E assim como Rumarita, a pálida virgem ariana, caminha impávida para a pira do sacrificio em holocausto aos ritos sacerdotais, assim a alma de uma grande amorosa se veiu lançar á fogueira de uma paixão para a converter em facho que despede clarões de piedade e derrama centelhas de razão.