Página:Maria Feio - Doida Não (1920).pdf/112
que daqui saúdo afectuosamente em homenagem de admiração, depois de haver atacado o homem e o sábio intangível sempre e ainda escravo das tradições de bárbara e máscula sobranceria.
Seria belo que todos os Excelentíssimos Clínicos que incorreram neste lapso de diagnósticos, mais como homens de convencionalismo do que como médicos, me ajudassem nesta tarefa de rehabilitação geral. Porque afinal hei-de demonstrar-lhes que classificaram de demência um direito humano, consoante o confirma o seu colega, o Dr. Bourgas.
Ora um outro seu colega, que foi um dos mais assombrosos sociólogos italianos do século XIX, o imortal pensador Paulo Mantgazza, pôz estas palavras na boca de um médico a que se refere no seu livro: « Uma página de Amor ».
«Na medicina não ha nada positivo, não ha nada seguro ».
Assim parece neste caso em que as luzes da sciência viram treva de loucura onde raia antes a alva precursora de um humano direito de amor que parte grilhetas de convenção para dispôr lógicamente da sua vida e do seu coração atrofiados em atmosfera conflituosa.
Já eram horas de reconhecer a necessidade de lança sobre a poeira bolorenta dos códigos antigos, a levedura de uma ampla remodelação.
Uma lei natural se impõe ás leis decrépitas dos homens que exercem o amôr livre a toda a hora, condenando o direito natural do amôr na mulher que ofendem e desprezam. Portanto neste erro de interpretação, errou mais a concepção dos homens do que a fórmula do diagnóstico scientifico.