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cujo segredo ninguém penetrara. Não era casado, nem tinha família de espécie alguma, com exceção de uma negrota que lhe fazia comida, uma negra idosa que lhe lavava a roupa,e um negro de meia idade que era o seu pajem e confidente.

Levantava-se logo cedo, chamava as aves, e com as próprias mãos dava-lhes a ração de milho ou arroz. As galinhas, os patos, os perus, os capotes, depinicavam os caroços, escarvavam o chão, soltavam as suas toadas - uma baças, outras argentinas - alegres, domésticos, mansos, amigos do seu senhor, em redor do qual se demoravam, como se, presos pela confiança, lhes custasse muito apartar-se de quem era tão bom para eles. João Mateus dirigia-se depois a um e outro curral, e passava as vistas por sobre as reses, algumas cabras que andavam soltas do lado de fora, iam a seu encontro logo que o avistavam, e tomadas de familiar ternura, lambiam-lhe as pernas ou as mãos, na mesma doce entrega da amizade que para o fazendeiro tinha a criação.

Nos primeiros tempos que sucederam à chegada de João Mateus, sumiram-se algumas cabeças de gado; mas depois os ladrões começaram a excluir do número das suas explorações a propriedade do velho, mudança que tinha natural explicação na caridade com que ele tratava aquela gente sem cultura, mas não sem o discernimento necessário para render homenagem à