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medida. E os novos irrompiam em aplausos delirantes, arremessavam á alcôva luvas, chapéus e binóculos, e arremessavam-se depois êlles próprios, abraçando doidamente os protagonistas, na maior das confusões, num pele-mele infernal, em que já ninguém distinguia Adão e tôdos distinguiam Eva. A ovação convertia-se numa luta, o pano caía, a luz afroixava, e os espectadôres resignavam-se a deixar por 24 horas as cadeiras do teatro, e iam dessendentar-se nas próximas locandas.
O público fizera o teatro, e o teatro satisfazia o público.
Os moralistas caturras, os Larragas de tôdos os tempos, prégavam furiosamente contra a desmoralização dramática, e, á noite, por distracção, iam vêr o Paraíso no Teatro Aéreo.
As autoridades, desde a polícia até ao prefeito da cidade, assistiam ao espectáculo e não tinham observações que fizessem.
Os governos, fieis mantenedôres da purêza dos costumes, sustentavam um teatro-modêlo, destinado a fomentar a boa literatura nacional e a educação pelo drama; mas as emprêsas não se inventaram para fo-