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ducto que passava sõbre a Avenida da Liberdade. Chamava se a comédia o Nôvo Paraíso; e o protagonista, Adão Júnior, fielmente caracterizado á similhança do Adão Sênior da lenda biblica, exibia-se em scena, muito naturalmente, sem peccados, sem fôlha de parra, sem nada. A ingênua, Eva Lusa, trajava unicamente a sua longa trança flutuante, e demonstrava, com a mais atraente convicção, que o fruto prohibido não passava de uma lenda. O scenário do último acto representava uma alcôva, em que os habitantes do paraíso devassavam ardentemente os mistérios da criação.

E o Padre Eterno, representado por um administradôr de bairro, trêmulo de solenidade, abençoava o novo tronco de nova progênie, deixando escoar dos cílios uma lágrima eloquente de ternura paradisíaca.

E o entusiasmo apossava-se dos espectadôres. Os velhos choravam de alegria agitavam-se febrilmente nas cadeiras, e distendiam as pupillas incendidas, para vêr, vêr muito, vêr tudo. As meninas consultavam as mamans e absorviam-se em profundas meditações, em planos de uma ventura des-