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sem normas, em que o sublime era grotesco, e em que o simples e o natural era o sôro chilro de miolos sem vida.

Das collecções de Reliquiano, separo um fragmento poético, para que melhor entrevejas a índole e a linguagem da poesia da decadência. Lê, e arquiva, que vale a pena:

 

Quando ólhas para mim, lirio do val՚,
esvai-se-me a razão, foge-me o estilo,
pois vejo nos teus olhos, tal e qual,
com licença do clássico Camillo,
duas... —não queiras levar isto a mal !—
duas cabêças rútilas de grilo;
e juro-te que tenho em ti mais fé,
do que no próprio Comte ou no Littré.

Tu és o meu ideal em carne e ôsso,
e, quando te não vejo, alva Anſitrite,
dou o cavaco, foge-me o apetite,
e fico tôdo o dia sem almoço.
Que bellos frângams tinha o Mata, um dia,
em que almocei na tua companhia!

Pois os espargos?! não te lembras, filha?
Hei-de levar-te um leque de Sevilha
e cerejas da praça da Figueira,
se voltares ao Mata, quinta feira.
Não te esqueças, amôr, leva a mantilha.