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atirando os sedentos de glória, das bancadas da escola primária, para as arenas do jornalismo, do romance, da critica e da poesia.
Não pódes imaginar o que se disse e o que se escreveu, por êsses tempos. A linguagem chegou a sêr uma algaravia inextricável, donde a grammática e o bom senso fugiam espavoridos e horrorizados. A crítica tornou-se uma faculdade puramente individual, pela ausência de princípios e de orientação: o crítico A. celebrava a apotéose daquillo que, para o crítico B., era a suprema toleima; num dia, tôdo o occidente aclamava um herói, e, momentos depois, o herói era recenseado na confraria dos ineptos ou dos infames. O romance era a fotografia da linguagem do tempo e o estimulante de paixões reles. A poesia, ou antes, o que se crismava com este nôme, era, por via de regra, a extravagância metrificada a palmos, em gíria de estudante cábula.
E contudo, meu amigo, Portugal têve uma literatura. Póde até dizêr-se que, de todas as bellas artes, a poesia foi a que maiór número contou de notáveis artistas. Em parte, explica-se o facto pela influência