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—conde de qualquér coisa illustre. Um Santos, bacalhoeiro, passava a chamar-se conselheiro Dias Santos. Domingos houve, que fôram commendadôres, quando na organização predial já não havia commendas nem feudos. A um Semana, que curava flatos e erguia a espinhela, chamou-se doutôr Semana; e até os mêses serviram para baptizar as grandêzas anónimas, dizendo-se geralmente: o directôr Janeiro, o inspectôr Fevereiro, o pescador Maio.
Uma vêz guindadas aos intermùndios da prosápia social e burocrática, as nullidades da véspera davam-se particularmente a longos ensaios para falar de papo, e varriam da memória tôdos os seus conhecidos, desde conselheiro para baixo. Barbeadas, erectas, solenes, á similhança de Momos mascarados de Júpiter, eram inacessíveis á humanidade do seu bairro e aos peões da sua antiga igualha; e quando se dignavam de palmilhar o asfalto da cidade, os candidatos a escriturários e os pacóvios de tôdos os matizes abriam alas respeitosas, murmurando com reverência:
— Sr. commendadôr...
— Sr. conselheiro...