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pos mitologicos da Grecia: frotas de Jasões coalhavam os mares, em demanda do carneiro precioso... A pasta era o verdadeiro San Graal, das lendas medievais: cada cidadão era um cavalleiro andante, que levava a existência, em procura do vaso sagrado. . A pasta era a terra santa, que estava sempre em podêr de infieis; e tôdo o fiel português reconhecia em si o patriótico e religioso devêr de ser Godofredo, ainda que fôsse Godofredo de loiça das Caldas.
A pasta era um símbolo e uma religião, meu amigo. Assim como o barril era o símbolo do trabalho, e a giga o símbolo da honradez nacional, a pasta era o símbolo do podêr, dos ócios deslumbrantes, das vaccas gordas do Egipto, do paraíso do Alcorão.
Como as grandes ideias e os grandes commettimentos, a pasta foi assunto de grandiosas epopeias, de que apenas restam alguns fragmentos. Dêstes, conservo um, com que me brindou Reliquiano, e cuja reprodução me não desagradecerás, porque tem verdade e... côr local. Não sei se pertence a algum trovadôr de gestas; mas, pela calligrafia e pelos conceitos, não póde sêr anterior ao seculo XIX.