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O doutôr annuíu, mas eu pedi a palavra para uma questão prévia, como se diz em San-Bento, e parolei-lhe assim:

—Senhôr conde. Nasci montanhês, criei-me entre as serranias da Beira, bebi nas mesmas fontes onde se dessedentaram os heróis que vingaram a afronta de Galba e fizeram rôsto ao cônsul Serviliano.... (E a êste propósito ingeri-lhe no tímpano tôda a história de Viriato). O grande caso, senhôr conde, é que o sentimento da independencia e da liberdade radicou-se em mim a tal ponto, que me horrorizam instintivamente: as caprichosas e arbitrárias sugestões de v. ex.ª—Não consentirei jámais que a minha consciência seja estranha aos meus actos ; e, antes de hipnotizar-me, pretendo que v. ex.ª se obrigue a não me sugerir palavras ou actos que não tenham a minha aprovação prévia.—

Concordou o doutôr com as minhas reflexões, e pediu-me que indicasse a sugestão.

Nêste ponto, desdobraram-se diante de mim os planos mais deslumbrantes. Que diria eu? que deveria eu fazêr durante o sono hipnótico ?

Ocorreu-me uma grande e legítima am-