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Uns apregoavam a creosote contra dôres de dentes e moscas varejas; outros inventavam os pós da viscondessa e o elixir dos benedictimos; êstes fabricavam dentaduras á custa de vélhos esqueletos e da generosidade dos coveiros; outros rebocavam com chumbo os caninos carcomidos; e outros, ainda, percorríam as feiras, os parlamentos e os comícios, tirando dentes sem dôr.
De tão simpática e tentadôra indústria resultou apenas o agravamento do mal.
Por um lado, os pós, os elixires e a creosote, e por outro a baratêza e a satisfação com que se extraíam dentes, punham a descoberto os alvéolos de tôda a gente, dando-se o caso de que as últimas gerações portugalenses se desdentaram antes dos dezoito annos.
Imagina como seriam laboriosas as digestões dos pratos de resistência, nos bufêtes do Teatro Aéreo, ou a deglutição dos chifres, com que o Estado alimentava o funcionalismo. As conpleições depauperavam-se prematuramente, a mocidade tornou-se uma lenda, e quem chegava aos trinta annos attingia a decrepitude.