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Nêste convivio com os mortos, o filólogo detestava os vivos, como ignorantes, materialistas e desrespeitadores do verbo dos espíritos; e atirava-lhes trópos e conjunções e anátemas.

Na contemplação dos espíritos e de si próprio, o filólogo comprazia-se na solidão; e quando, raramente, apparecia em público, perseguia-o a váia do rapazio estúrdio: —Agarra, que é filólogo ! Carrega-lhe os trópos ! Conjuga-lhe as orêlhas ! Dá-lhe barrela !—

E o filólogo, corrido e traquejado, sumia-se.

As academias médicas discutiram largamente se a filologite seria caso patológico. Um alienista célebre sustentou que a filologite era quási sempre o prenúncio do delirium tremens, e exibiu um admirável exemplar, que, abanando as orêlhas, fazia caír uma chuva de dialectos.

Não se propagou muito a família dos filólogos, pois que, demonstrado o carácter contagioso e hidrofóbico da filologite, foram apanhados a laço os exemplares mais notórios, e hospitalados no ermitério da Arrábida.