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servi-lo, e tambem porque o reconheciamos como nosso lider."3
E, entretanto, nos grandes casos em debate Lincoln não tinha força para lidera-los. Em 1837 o movimento do abolicionismo, muito recente ainda, estava começando a atroar os ouvidos da União. Filho ilegitimo do calvanismo e dos direitos do homem, o movimento condenava com anatemas todo possuidor de escravos e todos os oponentes á escravidão que não fossem do grupo. A animosidade voltava-se em especial contra qualquer sugestão para suprimir a escravatura sem choque economico, ao exemplo inglês, pondo termo aquela "peculiar instituição" por meio da compra. O lado religioso da abolição enfurecia-se com tais ideais. Os senhores de escravos eram os cananitas. O novo culto não passava duma instituição de Deus, desejoso de dar a Israel a alegria de estraçalhar Agag. Fanaticos terriveis, heroicos, eles faziam duas especies de adversarios — não só os partidarios da escravidão como ainda os reformadores que, embora odiando esse instituto, igualmente odiavam os pregadores da hecatombe como instrumento da ciencia politica. A maioria da Legislatura do Illinois era partidaria da escravidão, e nos começos de 1837 aprovou moções condenatorias do abolicionismo. Nessa emergencia foi revelado — sem que isso tivesse a minima importancia no momento — que entre os inimigos da abolição estava o jovem "amigo de todo mundo", Abe Lincoln. Dele, entretanto, partiu um protesto contra a ação da Legislatura. Apesar da sua influencia pessoal em outros setores, Lincoln só conseguiu persuadir um deputado a assinar com ele a moção. O protesto exorbitava das normas usuais. Os signatarios proclamavam a sua crença em que "o instituto da escravidão era baseado na injustiça e na má politica, mas que as doutrinas abolicionistas antes cooperavam para promover do que para suprimir os seus males."4
A singular originalidade desta posição, condenando os dois lados daquele duelo, passou despercebida no mundinho em que Lincoln vivia. Mais tarde apresentaria o interesse duma bomba que deixou de explodir. Era a aurora do seu intelecto. Na sua solitaria3