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A primeira qualidade da historia (quando não seja a sua essencia) é a verdade; e porque esta parecerá muito difficultosa, e por ventura impossivel na Historia do Futuro, será razão, que, antes que vamos mais por diante, soceguemos o escrupulo ou receio (quando não seja o rizo ou desprezo) dos que assim o podem imaginar. E pois pedimos aos leitores o assento da fé, justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade; não duvidamos da pia affeição de todos, pois a materia é tanto para crêr, e tão sua.
Confesso que entramos em um cahos profundissimo e escurissimo, de que se pôde dizer com toda a razão: Tenebræ erant super faciem abyssi. (Genes. I — 2) Mas neste mesmo abysmo de trevas, se o espirito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistencia, como alli não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas, (Ibid.) dirá Deus o que só elle pôde dizer, e far-se-ha o que só elle pôde fazer: Fiat lux, et facta est lux. (Ibid. — 3) As maiores trevas que se viram no mundo, ou com que o mundo se não viu, foram aquellas do Egypto, das quaes diz o texto sagrado: Factæ sunt tenebræ horribiles in universa terra Ægypti, nemo vidit fratrem suum, nec movite se de loco, in quo erat. (Exod. X — 22 e 23) Trevas que faziam horror, trevas com que nada se via, e trevas com que se não podia dar passo: taes são as trevas, e tal a escuridão do futuro. Comtudo, o apostolo S. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo, e a dar passo, e muitos passos nellas, e a vêr claramente, e com maior certeza, tudo o que ellas encobrem: Habemus firmiorem prophetiçum sermonem, cui benefacitis attendentes, quasi lucernæ lucenti in caliginoso loco, donec dies elucescat. (2 Petr. I — 19) Temos (diz o principe dos apostolos, as prophécias e palavras certissimas dos prophetas, as quaes devemos observar e attender,