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HISTORIA DO FUTURO.

queria fazer rei de dez tribus de Israel. (3. Reg. XI — 30 e 31)

Note-se aqui, e note-se muito, que os prophetas são os que dividem os reinos, e os que os repartem: elles os dividem primeiro prophetisando, e depois Deus executando: e se o propheta Ahias pôde partir a sua capa, e dar parte della a el-rei Geroboão, e parte a el-rei Roboão; porque não poderá Deus partir tambem a sua, e da purpura inteira que tinha dado, ou emprestado a um rei, cortar um retalho para vestir e coroar outro?

Ah! se os reis e monarchas considerassem que as purpuras que vestem lh’as empresta Deus da sua guarda-roupa, para que representem o papel de reis em quanto elle fôr servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do reino, e lhe deixem uma: (assim o diz expressamente o texto sagrado): Porro una tribus remanebit ei; (Ibid. — 32) porque o tribu de Benjamin, que ficou a Roboão juntamente com o de Judá, por sua pouquidade não fazia numero (era outro Algarve em respeito de Portugal). E se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribus, e lhe deixem uma só parte; porque se não contentaria o Roboão de Hespanha, quando lhe tire o mesmo Dono um reino, se lhe deixa dez? Oh como se pôde temer que chame Deus ingratidão, a o que os homens chamam reputação! A maior reputação de um principe que conhece a Deus, e reconhece seu supremo domínio, é dizer como Eli, ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est, quod bonum est, in oculis suis faciat. (1. Reg. XVIII)

E se esta razão, ainda em termos tão apertados, é sempre verdadeira; quanto mais no caso presente, em que a grandeza de Hespanha e sua potencia, é o maior seguro de sua reputação? Pedir paz, quem se não pôde defender da guerra, poderá ser menor credito; mas dar a paz, não porque a ha mister, senão porque a quer dar, quem pôde fazer, e apartar a guerra, sempre é generosidade, honra, reputação e gloria. O grande poder é muito confiado. Poder pôr em campo doze legiões de anjos, e mandar embainhar a espada a Pedro, foi a maior gloria do poder supremo. (Matth. XXVI — 52 e 53) Não pôde dar mais a fortuna a um