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só elle o pôde derribar. Bem sabe Castella (signal é que o sabe bem, pois chega a o confessar); e no mesmo anno em que Portugal se havia de levantar, o estamparam assim seus escriptos. Bem sabe Castella (digo) que Portugal com singularidade unica entre todos os reinos do mundo foi reino dado, feito e levantado por Deus, naquelles mesmos campos, e naquella mesma provincia onde todos os annos trabalham e batalham os homens pelo derribar, pelo desfazer, e pelo tirar a quem foi dado.
Se Deus o deu, como o podem os homens tirar? Se Deus o fez, como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou, como o podem os homens derribar? E se Deus prometteu que na decima sexta geração attenuda poria os olhos n ella para o restituir; como ha quem tanto á vista dos olhos de Deus queira triumphar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos gentios conheceu a consequencia desta verdade, e que os reinos fundados por um Deus (ainda quando houvesse muitos deuses) só o mesmo Deus os podia arruinar. Esta foi a theologia com que os dois principes dos poetas no incendio e destruição de Troya introduziram ao Deus Neptuno batendo com o tridente os muros que elle mesmo tinha fundado (Hom. Virg.).
Naquella noite em que Christo por sua propria Pessoa fundou o reino de Portugal, apparecendo e fallando ao seu primeiro rei, disse: Ego ædificator, et dissipator regnorum, atque imperiorum sum: volo enim in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire, ut deferatur nomen meum in exteris nationes[1]. Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos imperios: e quero em ti e em teus descendentes fundar um imperio para mim, pelo qual o meu nome seja levado ás nações estrangeiras. Se Deus é o monarcha supremo e universal, que funda e desfaz os reinos e os imperios, e com tão especial solemnidade fundou por sua propria Pessoa nos reis portuguezes de Portugal; quem haverá, que não seja o mesmo Deus, que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquellas tres clausulas, in te mihi stabilire. Se Deus o fundou em nós, in te, quem o po-
- ↑ Juramento d’el-rei D. Affonso Henriques.