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Considere Castella contra quem peleja, e conhecerá quão impossivel é a empreza a que aspira; acabe de intender que não peleja contra Portugal, senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. Talar as nossas campanhas, vencer em batalha os nossos exercitos, sitiar as nossas cidades, bater, minar, escalar e arruinar as nossas muralhas, bem pôde ser; mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossivel: não ha muro tão gastado da antiguidade, e tão fraco em Portugal, em cujas pedras não esteja escripto com letras de bronze: Verbum Domini manet in æternum. Reparem os famosos capitães de Castella, e considerem seus prudentissimos e experimentados conselheiros, apartando os olhos por um pouco de Portugal, se acham seus exercitos com forças e poder bastante para conquistar Europa, para sujeitar todas as quatro partes do mundo, e ainda para escalar como filhos do sol, o céu, e tirar delle a Jupiter: pois saibam, que mais facil será conquistar Europa, o mundo, e o mesmo céu empyreo, do que vencer e sujeitar Portugal, defendido e armado (como está) com as promessas divinas: Cælum, et terra transibunt, verba autem mea non præteribunt. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus, batam, abalem, derribem, desfaçam este castello, e depois delle rendido, então poderão conquistar Portugal.
Perguntem a el-rei José e a el-rei Acab, com as forças de dois tão poderosos reinos unidos, porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad, rei de Syria, e aos trinta e dois reis que o acompanhavam, porque uma e outra vez não conquistaram Samaria, sendo tanto o numero de seus soldados, que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ella (como elles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbissimo Senacherib, vencedor de tantas nações, com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra, e tão innumereaveis exercitos de pé e de cavallo, porque não chegou a meter uma setta dentro dos muros de Jerusalem? Porque Ramoth estava defendida com uma prophécia de Micheas: Samaria com uma prophécia de Eliseu: Jerusalem com uma prophécia de Isaias. (4. Reg. — 11)
Mas deixados exemplos das escripturas e prophécias canonicas, oiçam tambem as nossas, que sendo de inferior auctoridade,