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HISTORIA DO FUTURO.

mandada e ordenada por elle, e que a sua jurisdição é verdadeira e legitima, como de principe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao imperio. Tal foi a eleição de Saul; tal a de el-rei D. Affonso Henriques, fundador do reino de Portugal; e tal a de el-rei D. João, seu restaurador.

Não deixarei tambem de lembrar aqui, que não são tão novas e desconhecidas em Castella as prophécias ou esperanças de Portugal, que não façam menção dellas seus auctores, applicando-as á primeira parte deste mesmo caso nosso, e não duvidando que delle fallavam, e delle se haviam de entender D. João de Orosco, y Covarruvias arcediago de Cuellar na egreja de Segovia, no seu Tratado da verdadeira y falsa prophécia, liv. 1.º cap. 14, diz assim: — «Desta manera tuvo yo noticia de algunas profecias portuguezas, que eran tenidas como de S. Isidoro, y tengo notado yo una, en que a mi parecer se dixo mucho ha el haver de juntar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro, con harta particularidad.» Até aqui no corpo do livro; e commentando á margem o seu mesmo texto, põe as trovas seguintes:

Vejo, vejo, do rey vejo
(Vejo, o estoi soñando?)
Semente de rey Fernando
Hazer un fuerte despejo,
Y seguir con gran deseo,
Y dezir acá sua viña,
Y dezir, esta casa es mia,
En que aora acá me vejo.

A traducção não é muito limada, mas a explicação é muito propria, muito accommodada, e muito bem deduzida; porque sendo o intento e o assumpto, ou thema daquella prophécia, predizer os successos futuros de Portugal depois de sua restauração, como se tem visto, foi principio muito conveniente á ordem dos mesmos successos, começar pela sujeição do mesmo reino a Castella, e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. E se o verdadeiro propheta, e primeiro auctor desta prophécia é Santo Isidoro, e não outro, tanto melhor; porque temos mais qualificado auctor e mais auctorizado propheta. Mas