Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/73

Esta página ainda não foi revisada
HISTORIA DO FUTURO.
73

monarchas do mundo, aquelles principalmente que sendo reis, e possuindo os reinos, como dizem em suas provisões, por graça de Deus, com tão pouco respeito ao mesmo Deus, e á mesma graça, armam seus exercitos contra os alheios. Se Deus deu tantos reinos a Cyro, porque não dará Cyro um reino a Deus, ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar, e peço por reverencia do mesmo Deus aos reis catholicos; a seus conselhos, e a seus letrados, ponderem, ao que Cyro, rei não catholico, chama preceito de Deus neste seu edicto. Não teve Cyro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as prophécias em que estava annunciado, que no fim de setenta annos havia de ser o reino e povo hebreu libertado do captiveiro de Babylonia, e restituido á sua patria, corôa, e liberdade; e a estas prophécias chama o rei sem fé preceito de Deus; a este genero de preceito assim escripto, posto que não intimado com outra auctoridade, ou solemnidade, julgou que tinha obrigação de obedecer, e obedeceu com effeito, e observou em materia tão grave, e de tanto pezo e interesse de sua corôa, como era demittir de si um povo, e um reino tão notavel, de que elle já era o terceiro possuidor, porque o primeiro, foi Nabucodonosor, o segundo Balthasar, e o terceiro Cyro.

Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso: se Hespanha se quizer vêr e compôr a elle, lêa as prophécias que neste livro vão escriptas, e já cumpridas; veja quão legitimamente está restituido por ellas, conforme o decreto ou preceito divino, o rei e reino de Portugal, e não me créa a mim, senão a seus proprios doutores, e ao que mais duramente teem impugnado em nossos dias esta parte, e defendido a contraria: siga-se a sua doutrina, e não a minha advertencia.

D. João de Palafox e Mendonça, bispo de la Puebla de los Angeles, do conselho supremo de Aragão, na sua Historia Real Sagrada, escripta, como se vê, em tantos logares, mais para contradizer o novo reino de Portugal, que para historiar o de Saul, impugnando a eleição d’el-rei D. João o IV, cujo nome se dissimula, e ponderando augusta e doutamente os signaes com que se havia de justificar, para ser legitima, e de Deus, com maior ele-