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no anno de quarenta, e que neste seria levantado pelos portuguezes rei novo; e que se havia de chamar D. João: as prophécias o disseram, e os olhos o viram.
Pois se Deus não quiz que a sujeição de Portugal a Castella fosse perpetua, porque hão de querer e porfiar os homens, em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta annos, porque se não hão de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no catholico Cyro de Hespanha um acto de tanta justiça e generosidade, e de tanto rendimento e obediencia a Deus, como se viu no Cyro de Babylonia? Se Deus lhe deu o uso fructo de Portugal por praso somente de sessenta annos, e estes são acabados, porque se ha de querer chamar ao dominio e prescrever contra o céu? Se lhe parece coisa dura arrancar de sua coroa uma joia tão preciosa como o reino de Portugal, reparem seus prudentes e catholicos conselhos, que o não era menos naquelle tempo, nem menos conhecido e celebrado no mundo o reino de Judá, e que Cyro, rei ambicioso, arrogante e gentio, nem duvidou de o demittir de seu imperio. Quanto mais que por este acto de consciencia, religião e christandade, e por este reino que Castella restituir, ou consentir a Deus (pois elle tem já restituido), lhe pôde Deus dar outros maiores e mais dilatados, com que enriqueça e sublime sua coroa, e amplifique o imperio de sua monarchia, como succedeu ao mesmo Cyro. Por aquelle acto de generosidade e desinteresse foi Cyro tão amado de Deus, que lhe chamava o meu rei, o meu ungido, o meu Christo, o meu Cyro; e pelo merecimento dêste obsequio e rendimento á vontade divina lhe deu Deus em um dia o imperio dos assyrios, que era a primeira monarchia e universal do mundo, como o mesmo Cyro reconhece havel-o recebido da sua mão. Tão liberal é Deus com os principes que não regateam reinos, nem estados, com elle; e por um reino de tão poucas legoas de terra, qual era o de Judea (igual com pouca differença ao de Portugal), dá em premio e recompensa a monarchia de todo o mundo. Taes são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus), que Hespa-