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conheceu tarde a temeridade de seu conselho. Que differente foi o de Cyro, prudente e famoso rei de Babylonia[1]! Intendeu este mesmo excellente principe pela mesma prophécia de Jeremias, e pelas de outros prophetas, que o captiveiro e sujeição dos israelitas que elle tinha debaixo de seu imperio, não queria Deus que durasse mais de sessenta annos. (Jerem. XXIX — 10) E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idolatra), sem partido, sem interesse, sem obrigação, nem reconhecimento, os restituiu todos livres á sua patria.
Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava, e não quiz perpetuar a servidão, quando Deus tinha limitado annos ao castigo: crêu as prophécias sem serem suas, ou de seus oraculos, senão dos mesmos israelitas, porque tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do captiveiro, fôra cobiça, e não razão, tel-as por falsas na promessa da liberdade. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que acção tão digna de santificar, e fazer christã passando-a de um rei gentio a um rei catholico! Quiz Deus por seus altos juizos, que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis, e que sua corôa, ajuntando-se ás outras de Hespanha, estivesse sujeita a rei estranho; mas esta sujeição, e este castigo, não quiz o mesmo Deus que fosse perpetuo, senão por tempo determinado e limitado, e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta annos. Assim o diziam as prophécias, e assim o provou com admiravel consonancia o cumprimento dellas: só faltou para total similhança do caso de Babylonia, e para immortal gloria de Cyro de Hespanha, que a acção fosse voluntaria, e não violenta; sua, e não dos portuguezes. Mas vamos ás prophécias do captiveiro, e ao termo dos sessenta annos delle.
S. Frei Gil, religioso portuguez da ordem de S. Domingos, (de cujo espirito prophetico se dará noticia em seu logar) diz assim: Lusitania sanguine orbata regio diu ingemiscet; sed propitius tibi Deus, insperatè ab insperato redimè[2]. Portugal por