Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/64

Esta página ainda não foi revisada
64
HISTORIA DO FUTURO.

não levam, nem hão mister soccorros, antes dellas o recebe o reino com muitos e valentes soldados, e experimentados capitães, que, ou veem requerer o premio de seus antigos serviços, ou servir e merecer de novo, e justificar com os olhos do rei e do reino as certidões mais seguras de seu valor. Foi lei e lei prudentissima no principio da guerra — que não se alistassem nella senão mancebos livres: á sombra desta immunidade muitos filhos por industria dos paes se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimonio, com que as familias se multiplicaram infinitamente, e os mesmos que então se retiravam da guerra, teem hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ella.

Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados, nascidos e creados entre o mesmo estrondo das armas, em que o pelejar e o morrer não é accidente senão natureza, todos dentro em si e nas mesmas provincias e climas, onde nada lhes é estranho, e não trazidos por força de Sicilia, de Nápoles, de Milão e de Allemanha, comprados e conduzidos com immensas despezas e perigos, sendo muitos os que se alistam e pagam, e poucos os que chegam, uns para se passarem logo, como passam a Portugal, outros para pelejarem sem amor e com valor vendido, como quem defende o alheio, e conquista o que não ha de ser seu.

Os portuguezes, pelo contrario, com grande vantagem de coração pelejam pelo rei, pela patria, pela honra, pela vida, pela liberdade e cada um por sua propria casa e fazenda, sendo a maior commodidade da guerra, e multiplicação da gente, a mesma estreiteza do reino (que o discurso mal avaliava), por beneficio da qual os exercitos e provincias se podem dar as mãos umas a outras, pelejando os mesmos soldados quasi no mesmo tempo em diversos logares, e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados, e apparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos castelhanos com novo horror e assombro. Desta maneira não teme o valor portuguez que lhe suceda como a Eleazaro com o elephante, ficando opprimido com a sua propria victoria; mas está certo que lhe ha de succeder como a David com o gigante, logrando vivo a gloria de seu triumpho.