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HISTORIA DO FUTURO.
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ria dos soldados, sem adulterio dos metaes, e sem hypocrisia da moeda.

Bem sabem os doutos, que o nome grego *hypocrisia* se deriva do fingimento do melhor metal, e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vicio da moeda, que a mentira da virtude. Quem pudera nunca imaginar, que chegasse a tal estado uma monarchia, que é a senhora da prata, e de quem a recebe o resto do mundo? Cuidou Castella que a Portugal havia de faltar o dinheiro, e vê em si o que cuidou de nós; e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro, tambem as errou á gente: com verdade se podia dizer de Portugal, o que dos romanos disse o seu poeta:

Per damna, per cædes ab ipso,
Ducit opes, animunque ferro.

Ou tenha Portugal a qualidade da hydra, ou a natureza das plantas, por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha, apparecem na seguinte duas; e por cada ramo que faltou no outono, brotam dois na primavera. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presidios, assim os nossos exercitos: exercito no Minho, exercito em Traz-os-Montes, exercito e dois exercitos na Beira, exercito e florentissimo exercito, e sempre mais numeroso e florente em Além-Tejo. Assim se converte e se multiplica em nova substancia tudo o que come a guerra. E se Castella quer conhecer as causas naturaes desta philosophia, sem serem os portuguezes dentes de Cadmo, saiba que a sua reparação foi o primeiro principio deste augmento. Todos os portuguezes que povoavam suas Indias, que mareavam suas frotas, que trafegavam seus commercios, que inteiravam seus presidios, que militavam seus exercitos, ficam hoje dentro em Portugal, e o habitam e o enchem e o multiplicam, e assim se vêem hoje mais povoados seus logares, mais frequentadas suas estradas, mais lavrados seus campos, e até as serras, brenhas, lagos e terras, onde nunca entrou ferro, nem arado, abertas e cultivadas. As conquistas com a paz