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galas. O anno passado, que foi o ultimo, quando a primavera se acabou nos campos, se renovou outra vez no nosso exercito: tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam, para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competencia de seu valor: o menor gasto nos vestidos é o que se veste; mais se gasta em cobrir os vestidos, que em cobrir os corpos. A vulgaridade do oiro e prata só se estima pelo invento e pelo artifice, e não pelo preço: a pompa, riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão ás batalhas como a festas, e que se vestem mais para triumphar que para vencer. Não me atrevera a fallar com tanta largueza, se não pudéra allegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. Diga agora o algarismo de seu discurso, se pôde haver falta no necessario, onde sobeja e se dispende tanto com o superfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulencia, que os damnos da necessidade. O mesmo que se vê na policia bellica das campanhas, se admira na pacifica das cidades: com a guerra, que tudo quebranta e diminue, cresceu e se augmentou tudo em Portugal: nunca tanto se gastou no primor e preço das galas, nunca tanto no aceio e ornamento das casas, nunca tanto na abundancia e regalo das mezas, nunca tantos criados, tantos cavallos, tanto apparelho, tanta familia, nunca tão grandes salarios, nunca tão grandes dotes, nunca tão grandes soldos, nunca tão grandes mercês; nunca tantas fabricas, nunca tantos e tão magnificos edificios, nunca tantas, tão reaes, e tão sumptuosas festas. Passo em silencio os immensos gastos do serviço e magestade do culto divino, porque só o silencio os pôde explicar, não encarecer. Que templo, que capella, que altar, que santuario, que neste mesmo tempo se não renovasse, desfazendo-se e arruinando-se (com lastima) obras antigas e de grande arte e preço, só para se lavrarem outras de novo mais ricas, mais preciosas e de mais polido artificio? Tudo isto do que sobeja da guerra. Mas por isso sobeja. As usuras de Deus são cento por um, e estas são as minas do nosso reino, estes os Potosis de Portugal: destes commercios lhe vem as riquezas, com que pôde pagar e premiar seus exercitos, e com que os premios e as pagas sejam verdadeiras, e não falsificadas, sem inju-