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HISTORIA DO FUTURO.
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der e assistencia de Deus, tinha mui forçosa consequencia, e antes da experiencia mui difficultosa solução. E por tal julgaram ainda aquelles politicos, que, sem odio, nem amor, esperavam e prognosticavam o fim, e mediam a desproporção de tão desigual empreza. Mas Deus (a quem não queremos roubar a gloria) e a mesma experiência natural e o concurso ordinario de suas causas, tem mostrado, que só era sophistico e apparente, e em realidade falso aquelle discurso.

Porque as conquistas (que era o primeiro reparo), membros tão remotos e tão vastos deste corpo politico de Portugal, ainda que do reino, como do coração recebem os espiritos de que se animam, é tanta a copia de alimento, e tão abundante, que elles mesmos com suas riquezas lhes subministram, que não só teem sufficiente materia para formar os espiritos, que com os membros mais distantes reparte, mas lhes sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo; e a verdade desta experiencia se tem provado com mais sensiveis effeitos depois da paz universal das mesmas conquistas, as quaes com igual liberalidade e interesse remettem hoje ao reino toda aquella substancia que o calor da guerra propria lhe consumia: com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilissimas drogas de seus commercios. E ou seja esta a causa natural, ou outra mais occulta e superior, o certo é que as rendas e cabedaes do reino, assim proprios como particulares, com o tempo e continuação da guerra, não teem padecido a quebra e diminuição, que o discurso lhes prognosticava; antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiencia, que a substancia do reino está hoje mais grossa, mais florente e opulenta, que no principio da guerra; pois crescendo mais os empenhos sempre, e despezas della, ao mesmo passo parece, que, ou crescem, ou se manifestam novos thesouros, com que se sustentaram até agora, e se sustentam todos os annos, sempre mais e maiores exercitos, tão notaveis por seu nome e grandeza, como bizarros por seu luzimento.

Nenhum anno se poz em campo exercito tão grande, que no seguinte se não puzesse outro maior: nenhum anno tão bizarro e tão luzido, que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas