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HISTORIA DO FUTURO.

premio do serviço, para o remedio da oppressão, para o alivio da queixa; rei que os vê e se deixa vêr; que os ouve e lhes responde; que os intende e o intendem; que os conhece e lhes sabe o nome, sem a dura e insupportavel pensão de o irem buscar a Madrid, não para o vêrem e lhe fallarem, mas para o vêrem por fé: conhecem a grandeza desta estimavel felicidade, e que logram aquelle estado ditoso de que se lembravam e fallavam seus avós com tanta saudade, e por que suspiravam seus paes com tantas ancias: e todo o preço para a conservação de tanto bem lhes parece barato, todo o trabalho leve, toda a difficuldade suave, todo o perigo obrigação: pelo contrario todo o pensamento que não seja desta perpetuidade horror, toda a conveniencia ruina, toda a promessa traição, e toda a mudança impossivel.

Isto é o que só tem Castella, e o que só pôde esperar dos animos dos portuguezes. Finalmente, esperava o discurso, que Portugal, como reino menor e dividido em todas as partes do mundo, com obrigação de alimentar aquelles membros tão distantes com sua própria substancia, havendo de sustentar as guerras e opposição de seus inimigos em todos elles, natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer: que a gente sendo toda da mesma nação se havia lentamente de diminuir: que o dinheiro e cabedaes não tendo minas, nem Potosis se havia de esgotar: e que não era possivel aturar por muitos annos as despezas excessivas de uma guerra interior, tão continua, tão viva e tão multiplicada em tantas provincias, cercado della por todas as partes contra os combates de uma potencia tão desigual e superior, como era a do maior monarcha do mundo: que quando o valor dos portuguezes se atrevesse sobre suas forças, seria como o de Eleazaro contra a grandeza e corpulencia do elephante, que, ainda caindo, seria sobre elle, e ficaria opprimido e sepultado debaixo de seu proprio triumpho, sem mais diligencia, nem acção, que o mesmo peso e grandeza de tão immenso contrario[1].

Verdadeiramente este discurso, humana ou gentilicamente considerado, e não entrando na conta desta arithmetica o po-

  1. D. Ambros. de Offic. liv. I cap. 10.