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HISTORIA DO FUTURO.
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gos, havendo tantas razões, ainda da mesma natureza, para os não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos, provada a verdade dos futuros com a experiencia dos passados: e verão, se quizerem abrir os olhos, um manifesto desengano de sua prophécia, conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal, pelejam contra as disposições do supremo poder, e combatem contra a firmeza de sua palavra. Oh quantos damnos, quantas despezas, quantos trabalhos, quanto sangue e perda de vidas, quantas lagrimas e oppressão de naturaes e estrangeiros podia escusar Hespanha, se, com os olhos limpos de toda a paixão e affecto, quizesse lêr esta Historia do Futuro, e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem, como é o animo com que elle se escreve!

Não entre só nos conselhos de estado a conveniencia e reputação, o appetite e o odio, a vingança, o discurso militar e politico; tenha tambem algum dia logar nellas a fé; supponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos, como e quando é servido; conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ella se costuma declarar; e depois de averiguada e conhecida, ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniencia, pois se lhe não pôde resistir com força.

Bem pudera conhecer Hespanha, voltando os olhos ao passado, pela experiencia, que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal, e Deus o que o sustenta desunido, e o conserva victorioso. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os portuguezes no primeiro de dezembro do anno de 640 chamavam-lhe por zombaria rei de um inverno, parecendo-lhes aos senhores castelhanos, que não duraria a phantasia do nome mais que até á primeira primavera, em que a fama só de suas armas nos conquistasse: mas são já passados vinte e cinco invernos, em que as inundações do Betis e Guadiana não afogaram a Portugal, e vinte e quatro primaveras, em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados.

Imaginou Hespanha, que na prizão do infante D. Duarte atava as mãos a Portugal, e lhe tirava a cabeça com que haviam de