Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/52

Esta página ainda não foi revisada
52
HISTORIA DO FUTURO.

difficultosas emprezas, para conquistar as mais bellicosas nações, e para fundar o mais poderoso e dilatado imperio, nenhuma arma poderia haver mais forte, nem mais impenetravel, nem que mais enchesse de animo, confiança e valor, o peito que fosse cuberto e defendido com ella, que um escudo formado por arte e sabedoria divina, no qual estivessem entalhados e descriptos os mesmos successos futuros que se haviam de obrar naquella empreza: assim armou o grande poeta ao seu Eneas; e este mesmo escudo, não fabuloso, senão verdadeiro, e não fingido depois de experimentados os successos, senão escriptos antes de succederem, é propriamente, e sem ficção, o que nesta Historia do Futuro offereço, portuguezes, ao nosso rei. Dobrado de sete laminas, dizem, que era aquelle escudo; e tambem o da nossa Historia, para que em tudo lhe seja similhante, é publicado em sete livros. Nelle verão os capitães de Portugal, sem conselho, o que hão de resolver; sem batalha, o que hão de vencer; e sem resistencia, o que hão de conquistar. Sobre tudo se verão nelle a si mesmos e suas valorosas acções, como em espelho, para que com estas copias de morte-cor diante dos olhos, retratem por ellas vivamente os originaes, antevendo o que hão de obrar, para que o obrem; e o que hão de ser, para que o sejam.



CAPITULO VII.
Ultima utilidade.

Entre as utilidades proprias, e dos amigos, não quero deixar de advertir por fim dellas, que tambem a lição desta Historia pôde ser igualmente util e proveitosa aos inimigos, se, deixada a dissonancia e escandalo deste nome, quizerem antes ser companheiros de nossas felicidades, que padecel-as dobradamente na dor e inveja dos emulos. Lerão aqui nossos visinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimi-