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mala suscipimus, si contra hæc per præscientiæ clypeum munimur[1]. Que vem a ser esta nossa Historia do Futuro, senão escudo da presciencia, præscientiæ clypeum? Armados com este escudo, que trabalhos, que perigos nos pôde offerecer o mar, a terra e o mundo, e que golpes nos pôde atirar com todas as forças de seu poder, que não sustentemos nelle com animosa constancia? Quem haverá que debaixo deste escudo não emprehenda as mais difficultosas conquistas, nem aceite as mais arriscadas batalhas, e não vença e triunphe dos mais poderosos inimigos, se as emprezas no mesmo escudo vão já resolutas, as batalhas vão já vencidas, e os inimigos já triumphados?
Fingiu o principe dos poetas latinos, que pediu Venus, mãe de Eneas, ao deus Vulcano, lhe fabricasse umas armas divinas, com que entrasse armado na difficultosissima conquista de Italia, com que vencesse os reis, e sujeitasse as nações bellicossimas que a dominavam, com que victorioso fundasse naquellas terras o famosissimo imperio romano, que pelos fados lhe estava promettido. Forjou Vulcano as armas, e no escudo, que era a maior e principal peça dellas, diz que abriu de subtilissima esculptura as historias futuras das guerras e triumphos romanos, compondo e copiando os successos pelos oraculos e vaticínios dos prophetas, e pelas noticias proprias que tinha, como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Jupiter.
……Clypei non enarrabile textum
Ilic res Italas, romanorumque triumphos,
Haud vatum ignarus, venturique inscius ævi,
Fecerat igni potens: illic genus omne futuræ
Stirpis ab Ascanio, pugnataque; ordine bella.
(Virg. Æneid. 8.)
O officio e obrigação dos poetas não é dizerem as coisas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser, ou como era bem que fossem: e achou o mais levantado e judicioso espirito de quantos escreveram em estilo poetico, que para vencer as mais
- ↑ D. Gregor. homil. 33, in Evang.