Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/48
pretendia a gloria de Deus, dilatação da fé, e conversão da gentilidade, mereceu que o mesmo Deus com uma voz do céu o exhortasse a levar por diante o começado, com promessa de seu favor, e luz dos gloriosissimos fins, que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar.
Assim se conta e escreve por fama e tradição daquelle tempo: com este oraculo divino mais fortalecido o espirito do infante, não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano, e deixal-as francas e patentes aos que depois vieram, vencidas as primeiras e maiores difficuldades; mas dar animo, valor, guia e esperança aos que, seguindo seu exemplo e empreza, a levaram ao cabo. Desta maneira o infante D. Henrique, que será sempre de feliz memoria, nos ganhou com sua constancia as conquistas, conquistando-as primeiro em Portugal, do que fossem conquistadas na Africa, Asia, America; e contrastando com igual fortaleza o indomito furor do segundo e quinto elemento (que são o mar e o fogo), que não pudera conseguir sem o soccorro da luz do céu, animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos successos futuros, para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da prophécia.
Finalmente, esta ultima resolução que no anno de quarenta assombrou o mundo, posto que muito a devamos á ousadia do nosso valor, muito mais a deve o nosso valor á confiança de nossos vaticínios. Que valor sesudo, prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empreza tão cercada de difficuldades, como levantar-se contra o mais poderoso monarcha do mundo, e restituir-se á sua liberdade, e acclamar novo rei, não longe, senão dentro de Hespanha, um reino de grandeza tão desigual sobre sessenta annos de captivo e despojado; sem armas, sem soldados, sem amigos, sem alliados, sem assistencias, sem soccorros, só, e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do mundo? Mas como havia outros tantos annos que a prophécia estava dando brados aos corações, em que nunca se apagou o amor da patria, e a saudade do rei, e o zelo da liberdade, dizendo e publicando a todos, que o desejado tempo della havia de chegar no anno felicissimo de quarenta, em que o novo rei seria levantado; a promessa