Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/47

Esta página ainda não foi revisada
HISTORIA DO FUTURO.
47

que é um seio ou braço do Oceano na sua maior largueza e profundidade, aonde elle é mais bravo e mais pujante, mais poderoso e mais indomito; o Atlantico, o Ethiopico, o Persico, o Malabarico, e, sobre todos, o Synico, tão temeroso por seus tufoes, e tão infame por seus naufragios. Que perigos não desprezaram? que difficultades não venceram? Que terras, que ceus, que mares, que climas, que ventos, que tormentas, que promontorios não contrastaram? Que gentes feras e bellicosas não domaram? Que cidades e castellos fortes na terra? Que armadas poderosissimas no mar não renderam? Que trabalhos, que vigias, que fomes, que sedes, que frios, que calores, que doenças, que mortes não soffreram e supportaram, sem ceder, sem parar, sem tornar atraz, insistindo sempre e indo avante, mais com pertinacia, que com constancia?

Mas não obraram todas estas proezas aquelles portuguezes famosos por beneficio só de seu valor, senão pela confiança e seguro de suas prophécias. Sabiam que tinha Christo promettido a seu primeiro rei, que os escolhera para argonautas apostolicos de seu evangelho, e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas; e esta fé os animava nos trabalhos; esta confiança os sustentava nos perigos; esta luz do futuro era o norte que os guiava; e esta esperança a ancora e amarra firme, que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros[1].

Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra, que nas estranhas, e mais forte guerra experimentaram nos naturaes que resistencia nos inimigos: quem quizer ver com admiração a tormenta de contradições populares, e de todo o reino, que por espaço de dez annos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas, leia o grande Chronista da Asia no 4.º cap. do 1.º liv., e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o mundo ao soffrimento, valor e constancia do infante D. Henrique, filho d’el-rei D. João o I, auctor desta heroica empreza, o qual como religiosissimo príncipe que era, e nella principalmente

  1. Juramento d’el-rei D. Affonso apud P. Vasconcellos.