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HISTORIA DO FUTURO.

Portugal naquelle dia fatalissimo, o primeiro de nossa maior fortuna, que justamente estavam temerosos os poucos portuguezes, e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha; mas como o velho ermitão, interprete da divina providencia, visto primeiro em sonhos, e depois realmente ouvido e conhecido, lhe assegurou da parte de Deus a victoria, com aquellas tão expressas e animosas palavras: *Vinces Alphonse, et non vinceris*; soccorrido o animoso capitão, e fortalecido o pequeno exercito com esta promessa do céu, sem reparar em que era tão desigual o partido, que para cada lança christã havia no campo cem moiros, resolveu intrepidamente dar a batalha.

Na manhã, pois, da mesma noite em que tinha recebido a prophécia, acommette de fronte a fronte ao inimigo, sustenta quatro vezes o peso immenso de todo seu poder, rompe os esquadrões, desbarata o exercito, mata, captiva, rende, despoja, triumpha; e alcançada na mesma hora a victoria, e libertada a patria, piza glorioso as cinco coroas mauritanas, e põe na cabeça (já rei) a portugueza.

Isto obraram as prophécias daquella noite na guerra, mas ainda mostraram mais os poderes de sua influencia na conquista. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos portuguezes, que as de Alexandre Magno na mesma India? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador: Oriente perdomito, aditoque Oceano, quidquid mortalitas cupiebat, implevit. Domado o Oriente, e navegado o Oceano, cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. Que dissera, se vira as navegações dos portuguezes no mesmo Oceano, e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa consequencia de lhes chamar immortaes. Não chegaram os portuguezes só ás ribeiras do Ganges, como Alexandre; mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras, do que ha do mesmo Ganges a Macedonia, dônd e Alexandre tinha saído.

Não venceram só o Poro, rei da India, e seus exercitos; mas sujeitaram e fizeram tributarias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreo,