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HISTORIA DO FUTURO.
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e poder de rei estranho, não seria por espaço mais que de sessenta annos. Lia-se no juramento d'el-rei D. Affonso Henriques, e na promessa do santo ermitão, que na decima-sexta geração attenuada, poria Deus os olhos de sua misericordia no reino. Lia-se nas celebres tradicções de Gregorio de Almeida no seu Portugal Restaurado, que o tempo desejado havia de chegar, e as esperanças delle se haviam de cumprir no anno signalado de quarenta e no concurso de todas estas prophecias, se consolava e animava Portugal, a ir vivendo ou durando até vêr o cumprimento dellas.

Fallando no mesmo captiveiro de Babylonia o mesmo propheta Isaias, e do allivio e consolação, que com suas prophecias haviam de ter em seus trabalhos aquelles captivos, diz com igual brandura e eloquencia, estas notaveis palavras: Spiritus Domini super me, ut mederer contritis corde, et prædicarem captivis indulgentiam, et annum placabilem Domino, ut consolarer omnes lugentes, et darem eis coronam pro cinere, oleum gaudii pro luctu: (Isai. LXI 1, 2 e 3) Desceu sobre mim o Senhor, e ungiu-me com seu espirito, diz Isaias, para que como medico dos afflictos captivos de Babylonia, curassse com o talento de minhas promessas e prophecias, a tristeza e desmaio de seus corações: e declarando mais em particular os remedios cordeaes que lhes applicava, aponta nomeadamente dois, que mais parecem receitados para o nosso captiveiro, que para o de Babylonia. O primeiro, era um anno de indulgencia e redempção, em que o captiveiro se havia de acabar: Et prædicarem captivis indulgenciam, annum placabilem Domino. O segundo, era uma coroa trocada pelas antigas cinzas, com que os luctos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam procinere, oleum gaudii pro luctu. Assim o liam os captivos de Babylonia nas suas prophecias, e assim o liamos nós tambem nas nossas; e assim como elles não tinham outro remedio na sua dor senão a esperança daquelle desejado anno, e a mudança daquella promettida coroa, assim nós com os olhos longos no suspirado anno de quarenta, e na esperada coroa do novo rei portuguez allivia vamos o pezo de nosso jugo, e consolavamos a pena do nosso captiveiro: