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HISTORIA DO FUTURO.

opprimia: os prophetas e as prophecias os alentavam. Cantavam-se as prophecias ao som das cadeas, e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros, e os corações mais fortes.

Foi mui particular neste caso entre todos os outros prophetas o zelo e diligencia de Jeremias, porque tendo ficado em Jerusalem, onde padeceu grandes trabalhos, prisões e perigos da vida por prégar e prophetisar a verdade, (pela qual finalmente morreu apedrejado) no meio destas oppressões e perigos proprios, não esquecido dos alheios, antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babylonia, escreveu um livro das suas prophecias, em que por termos muito claros e palavras de grande consolação, lhes annunciava a liberdade e o tempo della, como se póde vêr no cap. 29.º do mesmo propheta. Levou este livro a Babylonia o propheta Baruch, companheiro de Jeremias, leu-se em presença d'el-rei Iconias, e publicamente de todo o povo, que com elle vivia no captiveiro, e nota o mesmo Baruch, que todos com grande alvoroço corriam ao livro: assim o diz no primeiro capitulo da relação que fez desta jornada, e anda no texto sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechonice filii Joachim regis Juda, et ad aures universi populi venientis ad librum. (Bar. I--3)

Não sei se terá a mesma fortuna, e se será recebido e lido com o mesmo animo e affecto este nosso livro da Historia do Futuro mas sei que nos trabalhos, calamidades e afflicções que ha de padecer o mundo e póde ser cheguem tambem a Portugal, nem Portugal, nem o mundo poderá ter outro allivio, nem outra consolação maior, que a frequente lição e consideração deste livro, e das prophecias e promessas do futuro, que nelle se verão escriptas: ao menos não negará Portugal, que no tempo da sua Babylonia e do captiveiro e oppressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado, nenhuma outra appellação tinha a sua dor, nem outro allivio ou consolação a sua miseria, mais que a lição e interpretação das prophecias, e a esperança da liberdade e do anno della, e do termo e fim do captiveiro que nellas se lia. Lia-se na carta e tradicção de S. Bernardo, que quando Deus alguma hora permittisse que o reino viesse a mãos