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todos, (como é mais certo) nenhuma coisa poderão ter os homens de maior consolação, allivio, nem remedio para o soffrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades, do que a lição e condição desta Historia do Futuro, não pelo que ella tem de nossa, mas pelas escripturas originaes de que foi tirada. Este é o fim, diz S. Paulo, e o fructo muito principal para que ellas se escreveram: Quæcumque scripta sunt, ad nostram doctrinam scripta sunt, ut per patientiam, et consolationem scripturarum spem habeamus. (Rom. XV-4) A lição das escripturas, do conhecimento e fé das coisas futuras, é a que mais que tudo nos póde consolar nos trabalhos, porque a paciencia tem a sua consolação na esperança, a esperança tem o seu fundamento na fé, e a fé nas escripturas.
Que maior trabalho, ou a perigo, póde sobrevir a uma republica, que vêr-se cercada e combatida por todas as partes de poderosissimos inimigos, só, e desamparada, e sem amigo, nem alliado, que a soccorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Machabeos, de que Deus sempre os livrou com maravilhosas victorias e assistencias do céu, pelas quaes lhes não foi necessario valerem-se da confederação que naquelle tempo tinham com os romanos e esparciatas: e dando conta disto aos mesmos esparciatas Jonathas, que então governava o povo, diz assim em uma epistola: Nos cum nullo horum indigeremus, habentes solatio sanctos libros, qui sunt in manibus nostris, maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem, et amicitiam: (1. Mac. XII 9 e 10) Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonathas) a antiga amisade e confederação, que comvosco fizeram nossos maiores, não porque tenhamos necessidade della, e dos vossos soccorros, posto que não nos faltam inimigos, guerras, oppressões e trabalhos; mas temos sempre em nossas mãos os livros santos, em que lemos as promessas divinas e com elles, e com ellas nos consolamos e animamos a resistir, pelejar e vencer, como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos. No cap. 8. se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa Historia do Futuro, livro santo, se houver (como ha de haver primeiro) trabalhos, perigos, oppressões,