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HISTORIA DO FUTURO.
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lhos de Israel do Egypto, foi Deus, e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus, e quem abriu o mar Vermelho e afogou nelle Pharaó e seus exercitos, foi Deus: e os que attribuem as obras de Deus e os beneficios (de que só a elle se devem as graças) a Moyses e so idolo, não merecem ter vida, nem olhos para chegar a ver a terra de promissão; sendo muito justo e muito justificado castigo, que morram e acabem todos antes de chegar o praso das felicidades, e que pois tão ingrata e impiamente interpretaram o beneficio da primeira promessa, sejam privados de gosar a segunda. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moysés libertador do captiveiro, como tambem Deus pelo honrar lhe dava esse nome; mas nos homens que deviam dar a Deus toda a gloria (pois toda era sua) referirem-na a Moyses, era descortezia, attribuirem-na ao idolo, era blasphemia, e não a darem a Deus toda, era ingratidão summa.

Já Deus, portuguezes, nos livrou do captiveiro, já por mercê de Deus triumphámos de Pharaó e do poder de seus exercitos, já os vimos, não uma, mas muitas vezes afogados no mar vermelho de seu proprio sangue: imos caminhando pelo deserto para a terra de promissão, e póde ser que estejamos já muito perto della, e do ultimo cumprimento das promettidas felicidades. Se ha algum tão invejoso dos bens da patria, e tão inimigo de si mesmo, que queira retardar o curso de tão prospera e feliz jornada, e acabar infelizmente, ainda antes de vêr o fim desejado della, negue a Deus o que é de Deus, e attribua á liberdade as victorias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto, ou a Moyses, ou ao idolo: quem refere a gloria dos bons successos ao seu valor, à sua sciencia militar, ao seu braço; ao seu talento, dá a gloria de Deus ao idolo: por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade, essas mesmas victorias, e esses mesmos successos, assim os que já se viram, como os que restam, para se vêr, tantos annos antes revelados por Deus: para que conheça por nossa confissão todo o mundo, que são misericordias suas, e não obras do nosso poder; e para que nós, como effeitos da providencia, da bondade e omnipotencia divina, a Deus só as refiramos todas, e a Deus só louvemos e dêmos as graças. Os ini-