Página:Historia do futuro v.1 (1855).pdf/23
Se o fim desta escriptura fora só a satisfação da curiosidade humana, e o gosto ou lisonja daquelle appetite, com que a impaciencia do nosso desejo se adianta em querer saber as coisas futuras: e se as esperanças que temos promettido, foram só flores sem outro fructo mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e proprias se costumam esperar, certamente eu suspendera logo a penna e a lançára da mão, tendo este meu trabalho por inutil, impertinente e ocioso, e por indigno, não só de o communicar ao mundo, mas de gastar nelle o tempo e o cuidado.
Mas se a historia das coisas passadas (a que os sabios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas outras utilidades necessarias ao governo e bem commum do genero humano, e ao particular de todos os homens; e se como tal empregaram nella sua industria tantos sugeitos em sciencia, engenho e juiso eminentes, como foram os que em todos os tempos immortalizaram a memoria delles com seus escriptos; porque não será igualmente util e proveitosa, e ainda com vantagem, esta nossa Historia do Futuro, quanto é mais poderosa e efficaz para mover os animos dos homens a esperança das coisas proprias, que a memoria das alheias?
Se em todos os livros sagrados contarmos os escriptores de coisas passadas (como foram na lei da graça os quatro evangelistas, e na escripta Moysés, Josué, Samuel, Esdras e alguns outros cujos nomes se não sabem com tão averiguada certeza) acharemos que são em muito maior numero os que escreveram das futuras: differença que de nenhum modo fizera Deus, que é o verdadeiro Auctor de todas as escripturas (sendo todas ellas, como diz S. Paulo, escriptas para nossa doutrina) se não fora igual, e ainda maior, a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das