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CAPITULO VIII
O Pé Humano
— ENTRE todos os membros do corpo o pobre pé sempre foi o burro de carga, o martir. Sempre em contacto com o chão, sofria os maiores horrores — topadas em pedras, espinhos, estrepes. E além da parte do corpo mais judiada, era a mais sobrecarregada de trabalho.
— Bem verdade isso, vóvó! exclamou a menina. Só ter de sustentar o peso do corpo a vida inteira...
— Sustentar o corpo e carrega-lo, fazendo-o mover-se dum lugar para outro. Se o pé humano escrevesse suas memorias, como está fazendo a Emilia, não haveria leitor que não chorasse. E nós sabemos disso melhor que os outros, porque moramos numa terra em que o pé ainda padece muito. O Brasil é um país onde ainda ha milhões de pés descalços, exatamente no estado de nudez do pé do peludo. Não tem conta aqui no sitio o numero de cortaduras de pés, que eu curei; de estrepes, que eu tirei; de topadas de arrancar unha, que eu tratei. Pobres pés! Feios, sujos, de sola grossissima, toda rachada, dedos cheios de cicatrizes... Como é triste o pé do brasileiro da roça, que nu nasce, nu vive e nu morre !...
— E vitimas do bicho, vóvó, acrescentou Pedrinho. Na casa do Quizumba, por causa daquele chiqueirinho de porcos que eles têm no quintal, os pés das crianças dão dó. E՚ bicho que não acaba mais — e cada "morango"...