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— Muito cedo, murmurou d. Marcella.
A senhora de preto continuou sentada e entrou a discorrer sobre romances. D. Marcella tinha acabado um, de aventuras. Ia ver se se lembrava do enredo. Mas enganchou-se e não acertou com os nomes dos personagens. Recomeçou, tornou a enganchar-se:
— Um romance que faz gosto, d. Gloria.
— Eu não gosto de literatura, disse o dr. Magalhães. Folheei algumas obras antigamente. Hoje não. Desconheço tudo isso. Sou apenas juiz, pchiu! juiz.
D. Marcella estava quasi acertando com o enredo do romance de aventuras. D. Gloria escutava. A loura tinha a cabecinha inclinada e as mãozinhas cruzadas, lindas mão, linda cabeça.
— Quando julgo, annunciava o dr. Magalhães, abstraio-me, afasto os sentimentos.
— Estive comentando isso hontem á tarde com o dr. Nogueira, atalhei.
O dr. Magalhães agradeceu.
— Para proceder assim é necessário ter independencia. Eu tenho independencia. Que é que elles podem fazer commigo? Não preciso delles.
Ignoro a que pessoas se referia o dr. Magalhães. João Nogueira tocou-lhe no hombro e cochichou. Comprehendi que se tratava do negocio do Pereira.
Levantei-me, arredei-me, para não prejudicar