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S. BERNARDO
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mentos e bons propositos. Os sentimentos e os propositos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoismo.
Creio que nem sempre fui egoista e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
E a desconfiança terrivel que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiança é também consequência da profissão.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miudo, lacunas no cerebro, nervos differentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Magdalena me via assim, com certeza me
achava extraordinariamente feio.
Fecho os olhos, agito a cabeça para repellir a visão que me exhibe essas deformidades monstruosas.
A vela está quasi a extinguir-se.
Julgo que delirei e sonhei com atoleiros, rios cheios e uma figura de lobishomem.
Lá fóra ha um treva dos diabos, um grande
silencio. Entretanto o luar entra por uma janella fechada e o nordeste furioso espalha folhas seccas no chão.
E’ horrivel! Se apparecesse alguém... Estão todos dormindo.