Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/213
S. BERNARDO
211
fim accordando lembranças. Outras vezes não meageito com esta occupação nova.
Antehontem e hontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para termo razoavel esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que me appareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga comprehensão de muitas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Goso
perfeita saude. Quando o Costa Brito, por causa dos duzentos mil reis que me queria abafai, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, alludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um medico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma.
O que estou é velho. Cincoenta annos pelo
S. Pedro. Cineoenta annos perdidos, cincoenta annos gastos sem objective, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, callejei, e não é um arranhão que penetra esta casca
espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.
Cineoenta annos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para que! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sahir correndo, procurando comida! E depois guardar co
mida para os filhos, para os netos, para muitas ge-