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S. BERNARDO

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fim accordando lembranças. Outras vezes não meageito com esta occupação nova.
Antehontem e hontem, por exemplo, foram dias perdidos. Tentei debalde canalizar para ter­mo razoavel esta prosa que se derrama como a chu­va da serra, e o que me appareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga comprehensão de mui­tas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doença? Não. Goso perfeita saude. Quando o Costa Brito, por causa dos duzentos mil reis que me queria abafai, vomi­tou os dois artigos, chamou-me doente, alludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nunca um medico me entrou em casa. Não tenho doença ne­nhuma.
O que estou é velho. Cincoenta annos pelo S. Pedro. Cineoenta annos perdidos, cincoenta annos gastos sem objective, a maltratar-me e a mal­tratar os outros. O resultado é que endureci, callejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade em­botada.
Cineoenta annos! Quantas horas inúteis! Con­sumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para que! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sahir correndo, procurando comida! E depois guardar co­ mida para os filhos, para os netos, para muitas ge-