Página:Graciliano Ramos - Cahetés (1933).pdf/53
impossivel, e amanhã não se abre o armazem. Só lá para segunda-feira...
— Eu queria hoje. E’ até o mez vindouro.
— Perfeitamente. Mas onde vou buscar? Talvez na segunda-feira... E nem sei se poderei arranjar. Tenho quarenta. Servem-lhe quarenta?
Ella acceitou, com um gesto de resignação desalentada.
Retirei a Biblia da gaveta e procurei dinheiro entre as paginas do Ecclesiastes que é o meu cofre.
— Muito agradecida, suspirou D. Maria, recebendo as duas notas, meio desapontada. E’ por pouco tempo.
— Não se preoccupe, respondi acompanhando-a. Se não puder pagar, fica ahi como adiantamento, não tem duvida.
Voltei ao trabalho interrompido. Não pagava. Já me devia mais de quinhentos mil reis, devia também ao Dr. Liberato e ao Pinheiro. Nós sabiamos que aquillo era para o italiano, que vive a enganal-a, vai aos bordeis do Pernambuco Novo, mas não tinhamos coragem de recusar. Tão boa, tão amavel! Era pena que tivesse aquella desgraçada ligação com um traste como o Paschoal.
Embrenhei-me novamente nas selvas. Li a ultima tira e balancei a cabeça, desgostoso. Catei algumas expressões infelizes e introduzi na floresta, batida pelo vento, uma quantidade consideravel de passaros a cantar, macacos e saguis em dança acrobatica pelos ramos, cotias ariscas espreitando á beira da caiçara. Mas isto veio expremido e rebuscado. Tudo culpa do Paschoal.
Demais a mais a difficuldade era grande, as idéas, minguadas, recalcitravam, agora que eu ia tentar escrever a impressão produzida no rude espirito da minha gente pelo galeão de D. Pero Sardinha. Em todo