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por terminada. Julgo que não me afastei muito da verdade. Vi coisa parecida quando os trabalhadores da estrada de ferro encontraram no caminho do Tanque uns vasos que rebentaram. Havia dentro ossos esfarelados, cachimbos, pontas de frechas e pedras talhadas á feição de meia lua. O meu fito realmente era empregar uma palavra de grande effeito: tibicoara. Se alguem me lesse, pensaria talvez que entendo de tupy, e isto me seria agradavel.
Continuei. Suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, pennas de arara, cestos, redes de caroá, giraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao pagé: o beiço cahido, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completal-o, emprestei-lhe as orelhas de padre Athanasio. Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enfeitei-o. Mas aqui surgiu uma duvida: fiquei sem saber se devia amarrar-lhe na cintura o enduape ou o kanitar. Vacillei alguns minutos e afinal me resolvi a pôr-lhe o enduape na cabeça e o kanitar entre parenthesis.
— Está muito occupado, seu Valerio?
Abotoei a camisa, vesti um jaquetão e fui abrir:
— Não, D. Maria José. Ora essa!
Ella entrou de manso, com uns modos acanhados, acercou-se da mesa, os olhos baixos.
— Alguma novidade, D. Maria?
— E’ que... O senhor poderá tirar-me dum aperto? Não falei lá dentro porque tive vergonha. Já lhe devo tantas obrigações...
Ora sebo!
— Vergonha? E porque? Não ha razão, fiz eu com um sorriso amarello, esperando o golpe.
— Tenho precisão de cento e cincoenta mil réis. Venho importunal-o ainda...
— Cento e cincoenta mil réis, D. Maria? Agora é