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— Um bando de visceras escangalhadas, explicou o Dr. Liberato. Vida sedentaria, poucas precauções...
— Temos viuva, interrompeu o Paschoal. Quanto tempo durará elle ainda? Liquidado. Quanto é a fortuna, João Valerio?
Ninguem respondeu. Isidoro apalpou novamente o coração, e D. Maria José referiu o caso medonho duma preta que morrera queimada na semana anterior. Espalhou-se pela mesa uma sombra de morte. Baixei a cabeça, com pena da negra. O Dr. Liberato interrogou D. Maria com exaggerado interesse, pedindo minudencias, o que me trouxe aborrecimento e nojo. O italiano, que é robusto, tomava café e sorria.
A mulher tinha perdido no fogo os braços e as pernas, e do nariz corria um grude esverdeado.
— Oh D. Maria, exclamou o Pinheiro, repellindo a chicara e fazendo uma careta, para que vem contar essas historias?
Levantou-se, desesperado. Eu e Paschoal levantámo-nos tambem. Sahimos a passear pela rua.
— Preciso ver a Maria do Carmo, grunhiu Isidoro.
Entrámos na pharmacia do Neves. Encostado á grade, um sujeito escondia no lenço manchado de pús o rosto meio comido por uma chaga. Fugimos. O italiano poz-se a cantarolar entre dentes coisas afflictivas, com mamma e bara repetidas muitas vezes.
Às nove horas estavamos na redacção da Semana. Não encontrámos padre Athanasio.
— Foi confessar mestre Simão, que deu uma queda do andaime e vomitou sangue, informou o sargento. Os senhores querem escrever a noticia?
Não quizemos. Ficámos sentados, carrancudos.
— Com os demonios! bradou Isidoro, erguendo-se. Isto por aqui está funebre.
Subimos a rua do Melão. Lá para o caminho da