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GRACILIANO RAMOS

sahiria de semelhante difficuldade. Adrião Teixeira queria descobrir o motivo do meu afastamento. Se elle apertasse com Luiza, era possivel que ella se aborrecesse e contasse que eu lhe tinha dado dois beijos no pescoço. Martha, o soneto e os quinhentos contos de D. Engracia num instante se evaporaram.

Resignei-me a ir no domingo ao casarão dos Ita­lianos. Uma impertinencia, mas calculei que poderia, finda a atrapalhação do primeiro momento, esgueirar-me para a varanda e esconder-me por detraz das cortinas. Talvez Luiza nem reparasse em mim. Excellente coração! Outra qualquer teria feito da minha tolice um cavallo de batalha — e desmantelava-se este honesto rapaz que arranca um pão insipido ás folhas das costaneiras; ella não: provavelmente julgara aquillo uma ligeira ousadia que apenas lhe tocara a epiderme. Blindada contra os sentimentos de um miseravel João Valerio, com certeza erguera os hombros: “Deixal-o! pobre diabo!”

Sentia-me terrivelmente perturbado. Tanto que, durante o jantar, nem dei attenção a duas perguntas de Isidoro. O Dr. Liberato ageitou as lunetas, tossiu, disse com impaciencia:

— Mexa-se, homem. Que tem você?

— Eu? Não tenho nada, não houve nada não me fizeram nada.

Comprehendi o disparate e emendei:

— Estava distrahido. Uns calculos... E por falar em calculos, doutor, lá o patrão mandou pedir ou­tra receita. Anda com a cabeça doendo. A cabeça, a bexiga e as pernas.

Exploraram o Teixeira.

— Qual é a doença delle? perguntou Isidoro, inquieto.

Quando ouve qualquer referencia a enfermidades, murcha e apalpa o coração.